Barrela 11 de setembro, estréia no Sesc Iracema. E ainda mais nos dias 12,18,19,25,26 de setembro e 07,14 e 21 de outubro.
Sempre às 20h ao lado do Dragâo do Mar...
Grupo Imagens O GRUPO IMAGENS DE TEATRO foi fundado em janeiro de 2002, a partir de curso de iniciação teatral realizado pelo SESC – Pedro Domingues....
Plínio MarcosConsiderado um autor maldito, o escritor e dramaturgo Plínio Marcos foi um dos primeiros a retratar a vida dos submundos de São Paulo. Poucos escreveram sobre homossexualismo, marginalidade, prostituição e violência com tanta autenticidade...
Matéria retirada do site Zona MixNa noite do último domingo (25/04), aconteceu o encerramento do Festival de Teatro de Goiânia, e para a alegria de nós cearenses, um produto nosso levou cinco prêmios, entre eles o de melhor espetáculo. Estou falando da peça “O Abajur Lilás”, com texto de Plínio Marcos e direção de Edson Cândido.
Ao todo, o festival recebeu 17 apresentações de espetáculos teatrais de 5 diferentes estados do Brasil. A capital de Goiás foi movimentada com produções que buscaram linguagens inovadoras, instigantes, e que suscitaram importantes debates que enriqueceram o cenário teatral goianiense, e também contribuíram para a formação de público.
Além dos espetáculos, aconteceram ainda shows e o “Curta Mix”, o Festival de cenas curtas e performances, que movimentou mais de 18 produções artísticas de artistas de Brasília, Goiânia, Senador Canedo (GO) e Bonfinópolis (MG), sendo um espaço democrático que possibilitou a experimentação de várias manifestações cênicas das mais diversas linguagens.
Ah, ia esquecendo! O espetáculo vencedor “O Abajur Lilás” volta ao teatro cearense neste mês de maio, em três apresentações no Theatro José de Alencar: nos dias 7, 14 e 21, sempre às 19h, na sala de teatro do estabelecimento. “O Abajur Lilás” tem o apoio cultural do ZONAMIX, e do blog CULTucando.
Veja lista completa dos ganhadores e indicados:Melhor Maquiagem
Indicados: Cia. Plágio (Cru – Brasília/DF)
Grupo Imagens (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
Marie Thouron (Seu BomFim – Salvador/BA)
Vencedor: Cia. Plágio (Espetáculo Cru – Brasília/DF)
> Melhor Trilha Sonora
Indicados: Valéria Braga e Tiago (Bodas – Goiânia/GO)
Grupo Teatro da Terra (Curral – Santo André/SP)
Rodrigo Cruz e Rodrigo Cunha (Dúplice – Goiânia/GO)
Gerrah Tenfuss (Mel – São José do Rio Preto/SP)
Vencedor: Gerrah Tenfuss (Mel – São José do Rio Preto/SP)
> Melhor Figurino
Indicados: Júlio Vann (Balanço – Goiânia/GO)
Ricardo Braudes (Bodas – Goiânia/GO)
Grupo Teatro da Terra (Curral – Santo André/SP)
Edson Cândido (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
Moacir Gramacho (Seu BomFim – Salvador/BA)
Vencedor: Júlio Vann (Balanço – Goiânia/GO)
> Melhor Cenografia
Indicados: Moacir Gramacho (Seu BomFim – Salvador/BA)
Grupo Imagens de Teatro (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
Vencedor: Moacir Gramacho (Seu BomFim – Salvador/BA)
> Melhor Iluminação
Indicados: Rodrigo Assis (Balanço – Goiânia/GO)
Gerrah Tenfuss (Mel – São José do Rio Preto/SP)
Rodrigo Assis (Dúplice – Goiânia/GO)
Vencedor: Gerrah Tenfuss (Mel – São José do Rio Preto/SP)
> Melhor Atriz Coadjuvante
Indicados: Kátia Camila (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
Karine Ramaldes (Bodas – Goiânia/GO)
Clara Luz (Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
Vencedora: Kátia Camila (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
> Melhor Ator Coadjuvante
Indicados: André Reis (Cru – Brasília/DF)
Gilson Tenório (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
Chico Santana (Cru – Brasília/DF)
Vencedor: André Reis (Cru – Brasília/DF)
> Melhor Texto Original
Vencedor: Alexandre Ribondi (Cru – Brasília/DF)
> Melhor Atriz
Indicadas: Lana Gugel (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
Aila Rodrigues (Curral – Santo André/SP)
Vencedora: Lana Gugel (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
> Melhor Ator
Indicados: Sérgio Sartório (Cru – Brasília/DF)
Fábio Vidal (Seu BomFim – Salvador/BA)
Bruno Peixoto (Balanço – Goiânia/GO)
Beto Menêis (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
Vencedor: Beto Menêis (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
> Melhor Direção:
Indicados: Edson Cândido (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
Valéria Braga (Bodas – Goiânia/GO)
Alexandre Ribondi (Cru – Brasília/DF)
Vencedor:Edson Cândido (O Abajur Lilás – Fortaleza/CE)
> Prêmio especial do júri
Circo de quintal (Birigui/SP), pelo Conjunto da Obra – perfeita harmonia entre os elementos da encenação.
> Melhor Espetáculo – Júri Popular
Circo de Quintal (Birigui/SP)
> 2° Melhor Espetáculo
Cru (Brasília/DF)
> Melhor Espetáculo
O Abajur Lilás (Fortaleza/CE)
Na última semana, a equipe do CULTucando foi ver o espetáculo “O Abajur Lilás”, texto do dramaturgo polêmico Plínio Marcos. E olha que tivemos várias surpresas boas, mudanças e grandes sacadas.
O espetáculo é promovido pelo Grupo Imagens de Teatro, com direção de Edson Cândido, e nesta temporada traz um elenco bem maior, com mais veracidade em seu cabaré “Leite da Mulher Amada”.
> Leia matéria sobre a primeira temporada aqui
Entre as novidades, o espetáculo traz um elenco maior, bem mais real que na primeira temporada. O cabaré “Leite da Mulher Amada” virou uma grande arena humana, com vários compartimentos onde os vários personagens são dissecados, como um tapa na cara. A música da “Galega dos Teclados” é um show à parte, mesmo com muitas cenas fortes, consegui me remeter no repertório aos meus tempos de criança.
Já Kátia Camila (que vive a bêbada Célia) é, desde a primeira temporada no Theatro José de Alencar, a grande estrela de “Abajur”. Com seu jeito meio bêbado, faz da linha da comédia e da tragédia virar um fio de nylon, fino que é quebrado a todo instante. Outro fator da peça que faz dela ser um grande sucesso é o fator surpresa. “Toda quinta é um espetáculo diferente”, relatou Edson Cândido, diretor.
“O Abajur Lilás” pretende fazer uma metáfora à ditadura, colocando o público frente ao drama de três mulheres acorrentadas e amordaçadas pelo tirano, o gay assumido, louco e engraçado Giro. O entrevero se dá quando uma das prostitutas, numa raiva súbita, quebra o abajur lilás.
Toda a trama é ambientada em um cabaré, muito animado por sinal! O cheiro de bebida misturado com as brasas de cigarro e com as palavras sujas saídas das bocas de mulheres mal amadas, são elementos que compõem essa poesia marginal.

O espetáculo é fruto de estudo e pesquisa do Grupo Imagens de Teatro, fundado por Edson Cândido, diretor advindo do Estado de São Paulo. Desde 1998, Edson se sentiu instigado a montar Plínio Marcos, ao assistir ao filme “Rainha Diaba”, interpretada por Milton Gonçalves, e enveredou concretamente no universo fascinante de Plínio Marcos, ao montar o espetáculo “Meia Sola”.
Já em Fortaleza, Edson fundou o Grupo Imagens de Teatro, com a finalidade de seguir a linha e montar textos polêmicos do teatro brasileiro, tais como Plínio Marcos e Nelson Rodrigues; a partir de então iniciou os estudos, com leitura de livros.
Em 2005, o grupo continuou a pesquisa sobre Plínio Marcos e fez um estudo paralelo sobre Qorpo Santo, autor gaúcho do século XIX, com laboratórios em hospitais psiquiátricos e visitas a manicômios prisionais e circulando em Fortaleza e interior do estado do Ceará.
“O Abajur Lilás”, que faz parte do projeto “Plínio Marcos-Trilogia”, foi contemplado no Prêmio Myrian Muniz de 2009 /FUNARTE e tem como objetivo trazer para o público cearense e de todo o Brasil a importância que foi e que é a obra de um autor tão vigente e contundente como Plínio Marcos.
O projeto dispõe atualmente de 50 profissionais envolvidos direta ou indiretamente na concepção da vida real que é “O Abajur Lilás”. Vai uma cachacinha aí?

Serviço:
O Abajur Lilás, do Grupo Imagens de Teatro
Todas às quintas-feiras de Março (exceto dia 25/03) e dia 1º de Abril, sempre às 20h
No SENAC Iracema
Entrada: R$10 (meia) e R$20 (inteira)
Informações: (85) 8897-2730 e 3252-2215
www.pliniomarcostrilogia.blogspot.com
@imagens: Levy Mota, gentilmente cedidas pela produção da peça.
Meu pai morreu. Todo pai morre. Agora estou aqui pensando: o que foi que meu
pai me deixou? Apartamento? Não. Carro?Nem uma bicicleta. Dinheiro? Ele não conseguia pagar nem as próprias contas. Mas pagava a dos filhos. Roupas? Só um chinelo velho, mas meu pé é maior. Sem testamento, sem herança, sem nada? As peças. As peças de teatro? De quem são as peças de teatro? Meu pai era escritor. Escritor de teatro. Teatro? Teatro dá dinheiro. Tem gente que escreve peça pra ganhar dinheiro. Não, meu pai não. Não ganhou muito dinheiro com teatro. O que ganhou, gastou. Deu dinheiro pra muita gente. Meu pai não era um bom administrador. Era um "maldito", diziam, um "marginal", mas não era bandido.
Por que ele era maldito, afinal? Será que não pensava nos filhos? Por que não escreveu peça pra ganhar dinheiro? "Ninguém tem direito de pedir a um artista que não seja subversivo.". Meu pai escrevia sobre puta e cigano sem dente. Puta, cigano sem dente e cafetão. Puta, cigano sem dente, cafetão, presidiários, desempregados e fudidos. Puta e cigano sem dente? Puta, cigano sem dente e cafetão é chato, porra! Puta, cigano sem dente e presidiários não dava dinheiro. Puta, cigano sem dente e desempregados não tinha "patrocínio". Mas eu queria tênis americano, eu queria camisa Lacoste, camisa Hang Ten.
Meu pai tinha que ganhar dinheiro. Por que ele insistia em escrever peças sobre puta, cigano sem dente, cafetão e presidiários? Ele insistia. Puta, cigano sem dente, cafetão, presidiários, desempregados e fudidos. E o ator e Jesus Cristo e nada de "comédia comercial". Mas eu queria o meu "All Star", eu queria ter todos os discos dos Beatles. "Pai, me dá dinheiro pra comprar uma guitarra!" E eu tive, eu tive a tal guitarra, eu comprei todos os discos dos Beatles com o dinheiro dele (depois tive que comprar tudo de novo em CD com o meu dinheiro e agora dá pra baixar de graça na internet). Calça boca fina, camisa Hang Ten.
Onde ele arrumava dinheiro? Onde ele arrumava dinheiro pra me comprar tênis "All Star"? Ele achava que isso era "lixo americano". Ele achava que essa merda importada só servia pra aumentar a nossa alienação. Meu pai era generoso. Ele não ia deixar de me dar uma
coisa que eu queria, só porque ele achava que o que eu queria era imposto pela sociedade de consumo. Ele tentava me orientar, mas respeitava minha opinião de adolescente alienado. Onde ele arrumava dinheiro?
Era época de ditadura. Escrever sobre puta, cigano sem dente, cafetão e presidiários, incomodava os "poderosos". Porra, ainda mais essa! Já escreve sobre coisa que não dá dinheiro, mas além de não dar dinheiro, ainda é proibido? "Pai, me dá dinheiro pra comprar disco do Bob Dylan!". Meu pai fez novela, fez Beto Rockfeller. Mas Beto Rockfeller não conta, Beto Rockfeller era A novela, tinha a cara dele, era revolucionária. Ele fazia o Vitório, o melhor amigo do Beto. Ele ganhou um dinheiro, me comprou um tênis, uma guitarra, um...
Mas A novela era na Tupi. A Tupi faliu. Meu pai foi fazer novela na Rede Globo: "Bandeira 2". Mas a Globo é no Rio, o Rio tem praia, ele cabulava as gravações e ia pra praia: "Novela é chato pra caralho, porra! O direito da gente coçar o saco é sagrado.", ele dizia. Ele ia pra praia e lá ficava indignado porque naquela época a Globo não punha negros nas novelas e quando punha era nos papéis de escravo ou mordomo. Meu pai escreveu no jornal "A Última Hora" do Samuel Wainer, onde ele trabalhava, que a Globo botou a Sônia Braga dois meses tomando sol pra ficar escura, em vez de chamar uma mulata pra fazer "Gabriela". A Globo não gostou. Os "poderosos" da Rede Globo não gostaram. Fizeram ameaças, juraram de morte. Em fim, a Globo não dava mais. Quando ele tava por lá, ele bem que quis escrever novela. Afinal, eu queria dinheiro pra comprar tênis, disco, guitarra. Mas novela de puta, cafetão e cigano sem dente? Não, novela de puta, cafetão e cigano sem dente não dá. Se fosse cigano com dente, musculoso e mau ator, aí dava. Agora, cigano sem dente, pobre e fudido, não dá. Então não dá. "Na televisão brasileira, artista estrangeiro morto trabalha mais do que artista brasileiro vivo." Tudo bem, não podia fazer peça de puta porque a ditadura não gostava, não podia novela de cigano pobre, fudido e sem dente porque a T.V. não queria. Então o que que podia?
Não podia nem chamar a Rede Globo de racista, nem nada. A sinopse que ele fez pra uma novela quando finalmente a Globo chamou ele, era de uma tribo de ciganos que estupravam as filhas dos empresários e...bem, não aprovaram. E as portas iam se fechando. E a ditadura ali, descendo o cassete. E eu queria o meu tênis "All Star"! "Pai, porra, pai, eu quero dinheiro pra comprar time de botão!" Mas enquanto os "poderosos" iam dizendo: Não! Não! Não! Ele ia ganhando o respeito dos humildes de coração, um "povo que berra da geral sem nunca influir no resultado", um povo fudido, os marginais, as putas, os ciganos sem dente, os presidiários, um povo que não aparecia na T.V. "Pobre na Rede Globo almoça e janta todo dia". Pobre na Rede Globo tem dente, favela na Rede Globo não tem rato. Esse povo não era o povo dele.
O povo dele era entre outros, os sambistas, não esses de agora, de terno Armani, cercados de loiras recauchutadas, mas, os sambistas das escolas de samba de São Paulo. Os sambistas marginalizados, os que nunca gravaram CD. O Zeca da Casa Verde, o Talismã, o Jangada, o Toniquinho Batuqueiro, o Geraldo Filme, enfim, os que morrem na merda. "Silêncio, o sambista está dormindo, ele foi, mas foi sorrindo, a notícia chegou quando anoiteceu..."
Então a solução era fazer show com os sambistas. Meu pai contava histórias e os sambistas cantavam suas músicas. Mas os sambistas eram crioulos. Negros? Negro não podia. Em plena ditadura, Plino Marcos e "a negrada"? Que papo é esse? Poder, podia, mas ninguém queria ver. "A burguesia não me quer", ele dizia. Não podia peça de puta e novela de cigano sem dente pobre e fudido, não podia dizer que a Globo era racista e ninguém queria ver show com "a negrada". Então o que que podia? "Pai, me dá dinheiro pra comprar figurinha do álbum Brasil Novo!"
A ditadura quando eu tinha 7 anos tava em todo lugar, em cada esquina, no meio de cada casal que fazia "amor com medo", nos porões do Doicodi e nas torturas atrozes que muitos sofriam e eu lá: "Pai, me leva na Expoex, pai, me leva na Expoex! A Expoex é a exposição do exército! Eu quero ver os soldados, pai! Eu quero ver os tanques!" E ele me levava. Senão eu chorava. Eu chorava se eu fosse censurado e não pudesse ver a Expoex.
Quando eu tinha uns 12, 13 anos, lá estava o ônibus da escola pronto pra partir pra Porto Seguro com todos os meus amiguinhos dentro e os pais, do lado de fora, dando tchauzinho. E um amiguinho meu perguntou: "Quem é seu pai?" Eu não tive dúvida: "Meu pai é aquele!" E o meu amiguinho: "Aquele de terno e gravata? Aquele que tá conversando com o meu pai?" E eu: "É, aquele." O meu amiguinho gritou: "Pai, esse aí é o pai do Leo!" E a professora ouviu. Não, meu pai não era aquele de terno e gravata. Meu pai era outro. Era o que todo mundo tava chamando de mendigo. Meu pai era aquele de macacão e chinelo! Gordo de macacão e chinelo! "O pai do Leo é mendigo, o pai do Leo é mendigo!" Afinal, quem trabalha tem que usar terno e gravata.
Naquela época, um moleque de 12, 13 anos, era um tapado. Ou isso era característica minha? "Pai, por que você não trabalha? Pai, por que você dorme até meio dia? Pai, por que o pai do Paulinho tem carro e você não? Por que você chega de madrugada em casa? Pai, por que você anda de macacão e chinelo? Pai, me dá dinheiro pra comprar..." E o meu pai me dava dinheiro. Eu estudava em escola de "burguês". Eu estudei nas "melhores escolas". E olha que o meu pai odiava escola. "A cultura nas mãos dos poderosos constrange mais do que as armas; por isso, a arte e o ensino oficiais são sempre sufocantes", ele dizia. Ele saiu da escola na 4ª série do primário. Ele era canhoto. Na escola, as professoras o obrigavam a escrever com a mão direita. Ele fugiu da escola, ele sempre foi da esquerda. Era chamado de analfabeto. Com 21 anos escreveu "Barrela!". "Me chamavam de analfabeto, como se isso fosse privilégio meu, neste país." Meu avô queria que ele trabalhasse no Banco do Brasil, mas ele queria é subir num banco no meio da praça e fazer números de palhaço. A família chegou até a pensar que ele era débil mental. Meu pai foi pro circo. Ele amava o circo. Foi ser palhaço de circo. Era o palhaço Frajola. A escola dele era o circo, a minha era escola de "burguês". Mas como ele pagava a minha escola?
Foi preso, foi solto, ameaçado, escrevia em jornais e revistas, quase todos que existiam. Foi despedido de todos. A censura não queria meu pai escrevendo em lugar nenhum. O que fazer? Sair do país? Ele não falava direito nem o português. O que fazer? "Pai, me dá dinheiro pra comprar uma calça Soft Machine!".
Uma vez o meu pai tava com uma dívida muito grande, tava com dificuldade de pagar as prestações de um apartamento que ele comprou pra gente. Daí um belo dia a Ford ligou pra ele, convidando pra fazer um comercial. Era uma puta grana, dava pra pagar as dívidas e ficar bem tranqüilo por uns tempos. Meu pai não fazia comercial.
Foi vender livro na rua. Nas portas dos teatros, nas portas das faculdades, nos bares. Foi vender livro na porta de teatros aonde se apresentavam artistas piores do que ele. Ele mesmo editava os livros, ele mesmo ia vender. E podia? Não. Não podia. Várias vezes ele foi expulso pelo "rapa" como um camelô comum. E ele chorava? "Perseguido, o caralho! Eu não sou nenhum mosca-morta. Eu fiz por merecer. Fui uma pessoa que aproveitou bem a fama. Eu apedrejei carro de governador, quebrei vidraça de Banco. Foi uma farra. Não teve mau tempo." Tinha. Tinha mau tempo, mas ele não reclamava, eu nunca ouvi o meu pai reclamando da vida. Eu nunca ouvi o cara dizer que a vida tava difícil, ou que era "foda". Não. Ele só reclamava das injustiças. Ele berrava contra as injustiças, os preconceitos, a apatia. Meu pai é o Plínio Marcos, porra! Bela merda, tem gente que nunca ouviu falar. Pra muitos era só um fudido que não deu certo na vida, andando feito mendigo pelo centro da cidade. Já morreu. Não era melhor do que ninguém. (Não?) "Tudo se consegue com esforço; não se chega a lugar nenhum sem caminhar."
Com 15 anos eu quis sair da escola. Ele disse: "Sai logo dessa merda, eu te sustento até você encontrar sua vocação!" Eu saí, eu saí daquela merda na metade do 1º colegial. Acho que qualquer ser humano com o mínimo de sensibilidade, sabe: o ensino do jeito que é, faz mal pra saúde. Eu devia ter uns 17 anos, era de madrugada. Eu morava com ele. Eu tava na mesa da sala com o violão, triste, querendo encontrar a minha vocação, sem saber o que dizer, inibido, pensando em todos os artistas que eram muito melhores do que eu. Meu pai levantou pra tomar água, me viu ali, não disse nada. Foi até o escritório, voltou com um livro e leu um poema pra mim. "O corvo" do Edgar Allan Poe. Não disse nada, só leu a poesia. Não foi o conteúdo, foi o tom da voz dele, aquela voz doce que ele tinha. Ele declamava e eu ouvia como se ele me pegasse no colo. Foi dormir e me deixou ali, ouvindo o corvo dizer: "para sempre!".
Eu virei escritor, com 21 anos escrevi "Dores de Amores". Meu pai era um incentivador, idolatrava os filhos. Queria ser mergulhador só porque o Kiko, meu irmão, é. A Aninha, minha irmã, era tudo pra ele. Eu fiz vários shows com ele, pelas faculdades, pelos teatros, pelos bares. Ele contava histórias e eu tocava violão. Meu pai era generoso, violento, essencial, amava, amava tanto as pessoas que chegava mesmo a odiá-las. Lutava, berrava e me acordava. Meu pai não me deixou apartamento, carro, dinheiro, bicicleta. Nem o chinelo dele me serve. Eu tive e tenho que ganhar o meu próprio dinheiro. Até hoje, muito pouca gente quer montar as suas peças e muito pouca gente quer assistir. Meu pai já não precisa mais vender livro na rua, pra quem não quer comprar, ou pra quem compra só pra "ajudar".
O que eu mais queria é que ele me ouvisse agora: "Pai, você não me deixou nada que se possa enxergar. Nem carro, nem apartamento, nem bicicleta, nem chinelo. Me deixou a sua indignação, um pouco do seu temperamento, a lembrança de ver você acordando todo dia com uma puta força de vontade, com uma puta vontade de viver, sempre alegre, sempre fazendo piada das próprias desgraças, sempre dando tudo que ganhava pros filhos, sem nunca acumular porra nenhuma." E se ele me escutasse ele diria, com um sorriso malandro sem dentes, segurando as lágrimas: "Ê, Leo Lama!" Meu pai não sabia receber elogios. Mas se ele me ouvisse agora, eu diria:
Pai, eu preciso te contar, no seu velório foi muita gente, pai. No seu velório, estiveram os maiores artistas do país. Médicos, políticos, advogados, empresários, fãs, gente do povo, crianças e os sambistas. Os sambistas cantaram sambas em sua homenagem, pai. Suas mulheres, seus amigos, seus inimigos, todos nós, todos nós te aplaudimos quando o seu caixão foi colocado em cima do carro de bombeiro. Eu tava segurando uma aba, o Kiko a outra. Você foi cremado, pai. Seus amigos fizeram discursos emocionados, disseram: "Plínio Marcos, um grito de liberdade!" Nós jogamos suas cinzas no mar de Santos. Na ponta da praia, onde você passou sua infância. O Jabaquara, seu time, ficou na porta do pequeno estádio, uniformizado, com a mão no coração, vendo o cortejo passar. O povo na areia batia no surdo e entoava um canto mudo no crepúsculo santista e nós no barco deixávamos você escorrer pelos nossos dedos como se você nem tivesse existido. Eu ainda quis te achar no meio do mar, mas de repente já era só o mar. E você foi, como todo mundo vai.
É isso aí, pai: tanta gente te amava. Você sabia? Acho que ninguém te amou tanto como a minha mãe. O amor dela ecoa em mim. Mas, e eu, pai? E eu? Será que eu vou ter a mesma fibra que você? Eu não gosto de viver como você gostava. Eu não tenho a sua coragem. "A poesia, a magia, a arte, as grandes sabedorias não podem habitar corações medrosos." Eu acho que eu vou me vender, pai, eu acho que eu já sou um vendido. Eu só queria ser essencial, essencial como você. É difícil. Eu reclamo. A vida ta uma bosta! Tá difícil de encontrar pessoas essenciais, pai. As pessoas só falam e pensam no que é supérfluo. Eu não tenho assunto. Eu me sinto sozinho. Eu não sei sobre o que escrever. O mundo tá se destruindo, tem muita gente fudida, tem muitas festas e muita fome. Que indecência, pai, que vergonha que eu sinto desse tempo que eu vivo. Eu sei que você não tem saco pra choramingo, pai, mas me deixa desabafar, pai, só hoje, me deixa te falar sobre o sonho dessa gente, você sabe, essa gente, os "homens-pregos", fixos no mesmo lugar. Essa gente quer ter carro, pai, casa com piscina, essa gente quer ser rica e famosa, essa gente quer ser musculosa e quer ter bunda, essa gente diz que acredita em Deus e fode ele, essa gente não quer ser essencial, pai, essa gente... essa é a minha gente, pai, às vezes eu me olho no espelho e me acho parecido com essa gente. Me perdoa.
Um beijo do seu filho, Nado, que ainda usa o nome artístico que a gente inventou juntos: Leo Lama.
Smoky | Converted by Free Blogger Template
Powered by Blogger | Design by Web Site Hosting
